Being Abroad – Parte 1

A experiência de ir ao estrangeiro e morar um tempo por aqui é uma das mais interessantes que eu já tive até agora e talvez nunca seja tarde pra conhecer mais algum lugar, então recomendo a todos que aproveitem todas as oportunidades que aparecerem. Creio que a experiência do intercâmbio é bastante interessante por dois motivos diametralmente opostos. Ela mostra como somos ao mesmo tempo diferentes e iguais.

Ela expande os horizontes (culturais, sociais, econômicos), derruba vários preconceitos que invariavelmente existem e te faz perceber que as coisas nem sempre são do jeito que você acho que elas sempre seriam, tem coisas que pensamos ser obvias ou certas mas de fato somente o são dentro de um universo limitado geograficamente, culturalmente, economicamente. Um exemplo disso são as bicicletas em Amsterdam, que são mais importantes que os pedestres. No Brasil o pedestre é a prioridade máxima e quem deve se virar para mantê-lo a salvo são os outros, na Holanda, em Amsterdam, a prioridade é dos ciclistas, então se você esta na rua e uma bicicleta vai passar é você quem tem que correr pra não ser atropelado (eles tem sinos pra avisar os distraídos que eles estão passando) e não eles que devem parar ou desviar.

Do outro lado da moeda, é fascinante perceber que estando em um lugar onde as pessoas não falam a sua língua, não conhecem os mesmos livros, músicas, histórias (o que é só parcialmente verdade pois muito disso tudo é universal), é relativamente fácil se comunicar e perceber o que elas percebem e sentem. Perceber que a grande maioria dos valores de humanidade e civilidade, são cultivados e seguidos mundialmente é uma experiência que satisfaz demais a alma. Lembro de um dia, no metro de Paris, ver uma cena que me emocionou um pouco e marcou muito. Havia muitas pessoas no metro e na estação e uma menina chinesa, magrinha, pequena, entrava no metro quando um rapaz árabe esbarrou com o ombro, de uma maneira bastante agressiva, na menina. Três segundos depois um homem africano, bem maior que o rapaz árabe, deu um chacoalhão no rapaz e falou “Il faut aller doucement, connard” ou seja, “tem que ir com cuidado, idiota”. Nessa hora me veio um sentimento forte de justiça e satisfação com a humanidade. Um homem da África defendendo uma chinesa da grosseria de um rapaz árabe no metro de Paris.

Estar aqui tem tido um outro efeito sobre mim, que é me mostrar a importância da história. O Brasil é um país jovem, descoberto em 1500 e independente em 1822, a história do Brasil é tão curta quando comparada a do velho mundo. Aqui os lugares exalam história. Igrejas com mais de 800 anos de idade, lugares que existem a séculos. Foi aqui, na Europa, que nasceu a civilização ocidental da qual a gente faz parte, e em nenhum outro lugar isso é tão evidente. Acho também que aqui as cidades tem muito mais personalidade. Fiz os tours da New Sandeman em Paris e Amsterdam (recomendo fazer sempre que existir na cidade onde você estiver) e neles os guias contam as histórias dos lugares e do povo que mora e morou ali e você consegue perceber um certo espírito de união entre eles além de uma certa personalidade e modo de ver o mundo comum. É incrível ver como os parisienses são parisienses, no sentido de que se expressam de maneiras muito similares (e isso vai além da língua comum, chegando ao modo de pensar, aos trejeitos, construção das frases). Gostei muito também da história do povo de Amsterdam. Como a cidade foi construída artificialmente através de barragens (já que a altitude é baixa demais e em diversos pontos a cidade fica abaixo do nível do mar) há sempre o perigo da inundação e esse perigo e a necessidade de cuidar das barragens e as consertar em épocas de problemas fez com que em diversas ocasiões os holandeses deixassem todas as diferenças de lado pra se concentrar no bem comum. Amsterdam procura ser uma cidade onde você pode ir e ser aquilo que você quer ser, sem julgamentos éticos ou morais, e isso fica bastante evidente quando se constata as diversas liberdades que existem lá (quase nada é proibido e muitas das coisas que são proibidas pela lei na prática não são impostas).

March 2, 2011 at 9:50 am Leave a comment

Paixões instantânes

Você está no metro, são três hora da tarde e você não está atrasado, você consegue um lugar para sentar dentro do trem e está lendo um jornalzinho que lhe entregaram antes de entrar na estação. Algumas notícias de pouca relevância, Justin Bieber tem o clipe mais visto no youtube, alagamento ontem na zona sul devido a chuva. Por um pequeno instante você desvia o olhar do jornal e percebe uma menina no banco da frente, um pouco afastada de você. Ela está com fones de ouvido brancos e ouvindo alguma coisa no seu Ipod, tem os cabelos morenos um pouco desarrumados com algumas presilhas, a blusa com estampa colorida, o casaquinho aberto, os sapatos vermelhos, um conjunto de coisas que te chama a atenção em pouco mais que alguns segundos e, sem que você entenda bem como, te toma totalmente. Então some o jornal, some a senhora que sentava ao seu lado, some o menino jogando PSP que estava de pé do outro. O trem não faz mais barulho, você já não sabe mais em qual estação está e para onde vai. Você sequer sabe o que está fazendo lá, onde quer que ‘lá’ seja, pois você perde todos os parâmetros e só consegue perceber ela. Você não sabe quem ela é, não sabe o que ela faz ou quantos anos ela tem, mas ela te absorve, te puxa, te hipnotiza. Você em um segundo se imagina ao lado dela, não em um lugar, mas em todos, ao mesmo tempo, na praia, no cinema, no trem, no sofá, no carro, no restaurante, no parque, na roda gigante, na sala de espera, na calçada, no elevador. O seu coração acelera, a sua mente começa a duvidar da realidade, os seus olhos piscam rápido você perde o fôlego. Alguns instantes depois você sente um certo movimento, recobrando sua consciência percebe que o trem parou e as portas abriram. Você olha pra ela, que se levanta, sai pela porta. Ainda paralisado pela intensidade da experiência, meramente observa. As portas se fecham.

December 15, 2010 at 5:44 pm 1 comment

Noites Quentes

Noites quentes. É engraçado como elas trazem sentimentos confusos e misturados. Lembro de um dia numa praia, hospedado num hotel, eu devia ter uns 10 anos, era verão. O quarto era pequeno, acho que minha Irma e minha mãe estavam no mesmo quarto que eu. O calor insuportável não me deixava dormir, lembro até hoje do ventilador de teto girando e como ele não era suficiente. Fiquei horas ali até adormecer, não lembro se cheguei a cair no sono alguma hora. Essa deve ter sido uma das primeiras noites em que o calor me fez pensar na vida toda. Eu no auge dos meus 10 anos passei a noite virando de um lado pro outro e pensando nos meus problemas. Eu achava que tinha vários. Acho que tinha de verdade. É fato que os problemas do presente sempre, ou quase sempre, parecem maiores que aqueles do passado. Sempre penso na criança que perdeu a bola dela e no sofrimento pelo qual ela ta passando com essa perda, será mesmo que é tão menor que o nosso?

Noites quentes. Por mais que sempre surja a insônia como tema na hora de pensar nessas noites, eu penso nelas como noites de reflexão como noites em que a gente acaba se encontrando depois de tanto tempo vivendo no automático. Acho que vivi muito tempo no automático nos últimos tempos. É bom sentir que você tá no controle, principalmente quando estar no controle é tão difícil. Acho que por mais assustadoras que possam ser as noites quentes elas sempre foram meio marcadas por um certo sentimento de paz, de tranqüilidade, de harmonia interna.

Noites quentes. Elas não te lembram da sua condição solitária como as noites frias. Noites quentes me remetem a amor, a proximidade, a intimidade. Das poucas coisas que tenho certeza é que o amor preenche a gente, entra pelos poros, pela pele toda, vai mexendo um pouquinho com cada parte do seu corpo fazendo a gente se sentir de um jeito diferente, mais gostoso, mais alegre, mais otimista. Às vezes não é recíproco e dói, mas acho que dói um pouco menos nas noites quentes. O calor traz muitas lembranças, muitas recordações, acho que as noites quentes as vezes trazem de volta algumas pessoas, ou talvez seja o desejo quem traz, ou o desejo que crie a ilusão de que as noites quentes trarão alguém de volta. Não importa, tento não pensar demais nisso.

Noites quentes. Sempre me imagino morando numa cidade pequena, saindo no meio da noite pra dar um passeio na praça, passando em frente às casas, alguns vizinhos sentados em cadeiras do lado de fora, um casal namorando no coreto, às vezes o casal sou eu e ela, às vezes eu sou só o expectador. Dou uma volta no bairro, aceno pra algumas pessoas, lembro de alguma história que contaram, passo em frente ao parque de diversões, à roda gigante. Sinto falta de companhia em noites quentes, de histórias, de risadas, de sorrisos, de um sorriso em especial.

Noites quentes. Essas noites que fazem a gente chegar um pouco mais próximo da gente mesmo, que às vezes trazem a gente um pouco mais perto dos outros. Noites que fazem a gente viajar nas idéias, nas lembranças, nos desejos. Acho que nossos erros ficam m,ais perdoáveis, nossas culpas menos pesadas. As noites quentes me trazem vontade de fazer as coisas de um jeito melhor, menos preocupado, menos preso, menos discutido, mais espontâneo.Noites quentes. Se todas as noites fossem noites quentes, nenhuma seria.

November 3, 2009 at 7:28 pm 2 comments

Fluxo

Poucas pessoas gostam de trânsito. Enquanto se está no trânsito as possibilidades de uso do tempo são bem restritas. Talvez você possa ouvir as notícias no rádio e se informar sobre o que está acontecendo, talvez possa ouvir algumas músicas que gosta, se divertir, pensar um pouco na vida, resolver um dilema ou outro. Mas o fato é que a maioria preferia estar mais rapidamente no seu destino e, tão incomodada com a situação, não para pra tentar ver o trânsito de uma forma diferente. Sempre penso muito dentro do carro e tento ver se aquilo pode me dar algum insight. Talvez seja uma metáfora um pouco infundada, mas o que é a vida senão um amontoado de interpretações?

Aquele que pensar por poucos minutos no problema do trânsito perceberá que é um problema de fluxo. Os carros não vão de suas origens aos seus destinos com fluidez. Quaisquer que sejam os obstáculos, e não falta diversidade naquilo que para o trânsito, carros demais, ruas estreitas, acidentes, má sinalização, o problema é que os veículos tem o fluxo obstruído diversas vezes.

Penso que a vida seja como o trânsito, que sejam os fluxos que fazem uma pessoa feliz, saudável, realizada, bem sucedida. A maioria das pessoas bem sucedidas em algum aspecto da vida (seja profissional, amoroso, intrapessoal, amizades, saúde) são aquelas que fazem esforços repetidos, constantemente, em direção ao seu objetivo. Importa menos a velocidade e a qualidade desses esforços que o ritmo, que a constância. Se você ler todos os dias 15 páginas de algum livro, no final de um ano você terá lido 5475 páginas! Algumas pessoas conseguem ler livros com muita velocidade, outras não. A questão é que isso é irrelevante, o melhor resultado, o maior número de livros lidos, será na esmagadora maioria o das pessoas que tiveram ritmo e constância ao longo do tempo.

Honoré de Balzac escreveu mais de 100 romances, Rick Wakeman gravou mais de 100 álbuns. Essas marcas foram atingidas através do esforço contínuo, de um fluxo de esforços. Quer você seja uma pessoa muito ou pouco eficiente, muito ou pouco talentosa, a maneira mais segura de chegar longe em qualquer empreitada é garantir que haja um fluxo constante de esforços. O escrito prolífico é aquele que todas as manhãs acorda, toma seu café da manhã e durante várias horas, todos os dias, escreve. Escreve quando chove e quando faz sol, quando briga com a sua mulher e quando ganha presentes. Escreve quando está triste e quando está feliz.

Apesar de ser mais claro e fácil de perceber a importância de um fluxo uniforme e constante quando se trata de um objetivo concreto, mensurável e palpável, ele é tão essencial, ou mais nas questões abstratas. A mais clara é a melhoria pessoal, as pessoas que mais evoluem são aquelas que constantemente estão prestando atenção nas coisas que acontecem com elas, refletindo sobre os resultados e fazendo as alterações necessárias pra que os próximos resultados sejam melhores.

Quando coisas ruins acontecem e logo se abre espaço para novas coisas boas, quando todas as críticas são recebidas e rapidamente incorporam lições ao nosso comportamento, quando os nossos objetivos são perseguidos sistematicamente, todos os dias, independentemente dos humores, quando nos preocupamos com o fluxo das coisas, atingimos resultados melhores. Nosso trânsito interno funciona melhor, não ficamos empacados nos revezes da vida e aumentamos nossa gama de possibilidades de escolha. Nossas escolhas deixam de ser entre ouvir o rádio e olhar os prédios, pra incluir todo tipo de coisa imaginável, para seguirmos em direção a qualquer horizonte.

August 28, 2009 at 9:45 pm 3 comments

A inexplicabilidade do amor

Costumo gastar boa parte do meu tempo procurando as explicações dos fenômenos, objetos, sistemas e mecanismos que me rodeiam. Não lembro exatamente quando essa curiosidade começou, provavelmente muito antes das primeiras memórias que ainda consigo acessar. Talvez um dos primeiros eventos que mostram o início consciente dessa busca foi a descoberta do How Stuff Works. Eu tinha 16 anos e passava horas e horas lendo centenas de artigos que explicavam as minúcias do funcionamento de todo tipo de coisas. Computadores, cds, línguas, intestinos, motores, bancos, fibra óptica, elevadores, rating, empresas, cricket, risadas, depressões. Tudo era objeto de uma detalhada e principalmente metódica análise. Lembro claramente de aos poucos começar a olhar em volta e entender melhor os dispositivos lógicos, mecânicos, sociais e humanos presentes em todos os lugares. Aos poucos fui me interessando por entender o comportamento humano, as motivações, incentivos que levam as pessoas a fazerem certas decisões, quererem certas coisas, se afeiçoarem mais por isso do que por aquilo. Foi rápido perceber que entender o porque uma pessoa ficava feliz ou triste é muito mais complicado do que entender porque o ar condicionado consegue esfriar a sala. Apesar disso estou certo que hoje minha compreensão da maioria dessas questões, ligadas ao homem, aos sentimentos, as sensações, as interações, é substancialmente mais elevada que naquela época. Apesar desse longo caminho que percorri considero que ainda é um grande mistério o funcionamento do, na minha opinião, mais nobre e intenso dos sentimentos, o amor.

Acho que esse texto nunca poderia ter sido escrito antes de maio de 2008, foi quando começou a nascer o amor mais intenso que já tive por alguém. Mesmo o amor, até então, poderia ser explicado de forma mais ou menos lógica e convincente. Só que dessa data em diante algumas coisas foram mudando no meu jeito de enxergar o amor, cada vez mais sensorialmente e cada vez menos logicamente. Tenho muita dificuldade hoje de dizer hoje o que faz com que exista o amor ou não, pois vejo que ele quebra algumas regras que seriam lógicas. Já tentei muitas vezes explicar pra mim e também pra ela os motivos pelos quais amo ela. Digo pra ela te amo porque você é linda, carinhosa, fofa, inteligente, atenciosa, paciente, se digo que amo ela pelos motivos X, Y, Z então eles são as condições de existência desse amor. Se essa fosse a explicação do porque amo ela então duas coisas teriam de ser verdade. (1) Se fossem retiradas essas características dela, eu deveria deixar de amá-la. (2) Se eu encontrasse outra pessoa que possuisse X, Y, Z, em igual intensidade eu deveria ser indiferente a amar uma ou outra, se em intensidade maior eu deveria trocar a pessoa que amo. Acontece que nem (1) nem (2) representam a realidade. Eu não deixo de amar ela quando ela é grossa pois está com problemas ou acorda menos bonita do que sempre, o amor não some, nem diminui de intensidade, quando ela não entende algo que eu explico ou se irrita comigo, ou seja eu retiro X, retiro Y, retiro Z e continuo amando ela. Por outro lado, conheço várias outras pessoas, e elas aparecem, que tem X, Y, Z e não surge o sentimento amoroso por essas outras pessoas, e nem chega a ser uma cogitação substituir ou não uma por outra. Uma objeção possível a essa lógica é que existe W nela que, apesar de eu não saber o que é, faz com que eu ame ela. Essa hipótese é válida, porém não acredito nela pelo seguinte motivo: de maio de 2008 até aqui foram aumentando as características que eu conheço e valorizo. Primeiro eu soube que ela é bonita, que é a primeira coisa que você sabe quando conhece alguém pessoalmente é a cara dessa pessoa. Depois eu soube que ela é bonita + simpática, com algumas conversas a mais soube que ela é bonita + simpática + inteligente. Se você for avaliar no instante interior a esse terceiro eu sabia duas coisas somente sobre ela, bonita (X) e simpática (Y). O Z de então seria algo que me fazia amá-la mas eu desconhecia até então, acontece que depois eu descobri que o Z era ela ser inteligente, então Z não era a explicação, talvez M? Descobri mais tarde que M=carinhosa, e também X+Y+Z+M falha nos testes (1) e (2). A cada dia descubro um novo motivo N, I, J, A, B, C,… e a cada novo motivo os testes (1) e (2) se mostram insuficientes.

Eu poderia retirar disso duas conclusões, ou que eu ainda não encontrei o motivo pelo qual se ama, ou que a minha experiência com uma pessoa fantástica me faz acreditar que não há uma explicação lógica pra esse sentimento, que não possível explicar de maneira indutiva ou dedutiva porque meu coração bate mais forte perto dela do que de qualquer outra pessoa, porque meus lábios não conseguem evitar de sorrir quando ela entra na sala, entre outros vários exemplos que só ela causa em mim. É um pouco estranho pra uma pessoa que tenta organizar as coisas da vida de modo lógico, racional, se deparar com o fato de que aquilo que mais traz prazer, o amor, não é passível de se traduzir em alguns esquemas ou equações. Mas faz completo sentido esse sentimento indescritívelmente fantástico que experimento ao lado dela vir de algo também inexplicável.

March 5, 2009 at 4:25 pm 4 comments

O aspecto imaterial da propriedade

Já fazem alguns anos que eu penso sobre isso, sempre ficando muito fascinado, provavelmente pela falta de elementos concretos. Mas pense nessa pergunta, o que faz você dono do seu carro? Não é o fato dele estar na sua garagem e também não é a chave, não é sequer a nota fiscal da concessionária, é simplesmente o fato de você ter comprado ele. Parece óbvio, mas você já parou pra pensar na implicação disso? Isso implica em que há uma dimensão imaterial da propriedade. Muitas vezes penso no que me difere de um sem-teto, em porque eu tenho pra onde ir e ele não. Penso numa situação em que eu perco a minha chave de casa e ele a encontra (digamos que junto da chave exista meu endereço), se você parar pra pensar o único elemento físico que me torna morador de uma casa é a chave, ainda assim, eu sem chave e ele com, a casa é minha e não dele, e mesmo que talvez ele consiga entrar nela e eu não, em um curto espaço de tempo eu estarei dentro e ele fora, os vizinhos sabem que a casa é minha, há testemunhas, há documentos, mesmo que eu não tenha a posse, com o meu nome que me garantem a retomada da casa. É como se houvesse uma aura, um campo imaterial, um elemento invisível em mim, que me faz dono dos meus bens materiais.

February 25, 2009 at 7:36 pm Leave a comment

Ócio merecido

Lembro de uma aula de História Geral no cursinho em que o professor estava falando de um filósofo cujo nome não me recordo. Aquela ficou fortemente marcada pra mim, ele dizia que o filósofo exaltava o ócio, ‘como é bom não fazer nada’, no primeiro instante achei estranha a idéia, mas ele prosseguiu, o ócio é uma sensação fantástica, mas quando intercalado com realizações. Vá, faça o que tem que fazer, trabalhe, estude, conquiste, realize e, depois, não faça nada. Assim, e só assim, esses momentos de inatividade serão então fantasticamente prazerosos. Sempre tive uma sensação de que as paradas depois de grandes atividades têm um sabor especial, mais doce, melhor temperado que os outros. Talvez tenha algo a ver com a sensação de dever cumprido, com o gosto de olhar pra trás e ver uma série de concretizações. Talvez seja isso que faz os 15 minutos após completar um livro serem tão curiosamente prazerosos, com uma ponta de tristeza quando o livro era bom, ou mesmo aquela hora em que você volta de viagem e passa com a mala pelo batente da porta, senta no sofá. Não importa tanto se as coisas que vc fez foram trabalho, foram projetos profissionais, foram dias de diversão com amigos ou com a namorada. Quando se senta pra não fazer absolutamente nada e um inventário de tarefas cumpridas começa a rodar na sua mente, o ócio ganha, certamente, um novo colorido. É pelo mesmo motivo que descansar depois de bastante tempo descansando, mais cansa que descansa. Os melhores presentes e conquistas só podem ser os melhores quando eles vêm juntos com uma forte sensação de merecimento.

January 16, 2009 at 4:46 pm 3 comments

Intensidade

É fácil perceber que as pessoas no geral valorizam e buscam emoções de conotação positiva, aquelas que chamam de boas. Felicidade, alegria, conforto, contentamento, prazer são alguns dos objetivos da maioria das pessoas, mesmo aquelas que parecem valorizar o outro lado no fundo conseguem essas emoções através de processos diferentes das demais. O estereótipo gótico por exemplo, que exalta a morte, a depressão, a tristeza no fundo busca aquelas mesmas coisas (felicidade, alegria, contentamento) por meios que contrastam com o da maioria das pessoas. Difícil questionar o fato de estar feliz ser uma coisa positiva, mas e uma vida 100% feliz, feliz em cada segundo, só com vitórias, alegrias, prazeres, coisas gostosas, em que tudo funciona corretamente, será que uma vida assim é tão desejável? Será que a dor, a frustração, o fracasso, a agonia, o desconforto, a tristeza, aquelas emoções que chamam de ruins são de todo, ruins?

Creio que vejo essa questão de uma maneira diferente, dentre emoções positivas ou emoções negativas eu escolho emoções intensas. Dizem que é o fel que adoça o mel, que sem o sofrimento, o prazer é sempre menor, que o gosto doce das vitórias só é sentido por completo em uma boca que sentiu o amargo da derrota, concordo mas vou além. Creio que as emoções negativas intensas são importantes substantivamente, por si, e não apenas instrumentalmente, como meios para potencializar as boas. Busco uma vida que seja notável, interessante, emocionante, busco conhecer os dois lados da moeda, as áreas um pouco mais escuras da vida, das pessoas, aquilo que elas tem de melhor e pior, que faz delas humanas. As pessoas, na minha opinião, ficam lindas quando choram e quando sorriem. Mais lindas quando sorriem, é verdade, mas também há uma certa beleza intensa, diferente, nas lágrimas que escorrem pelo rosto. O momento das lágrimas costuma ser um dos maior contato introspectivo que temos. Ao derramá-las ficamos mais perto de nós mesmos, nos conhecemos um pouco melhor e aprendemos a nos aceitar também. Ao oferecermos ao outro nossas lágrimas, nosso sofrimento, ao dizermos que dele queremos todas as coisas, não importa que emoções nos cause, estamos querendo o outro incondicionalmente, sendo amigos, colegas, parentes, namorados incondicionalmente. Quero uma vida intensa, uma história de tirar o fôlego, quero que você faça parte dela, em todos os momentos, não temo chorar, não temo sorrir. Só assim que ficamos verdadeiramente juntos, se não temermos o nosso sofrimento, juntos eu e você, se eu não tiver medo das minhas próprias emoções, juntos eu e eu mesmo.

November 7, 2008 at 11:18 am Leave a comment

Choice – part one

Sometimes it is really hard to believe that life is supposed to be like it is. That it is supposed to be so hard. Really, can anyone tell me of something really valuable that doesn’t cost a lot? In Economics we say that the cost of something is what you give up in order to obtain it. That is the concept of opportunity cost, every choice has as its cost, if you walk to the mall, you can’t be at the bar, if you go visit you uncle, you can’t be fishing, if you buy an ice-cream, you’re giving up on a pack of crackers. It doesn’t really seem that tough when you’re comparing a walk at the mall or a beer at the bar, or when you choose if you want a strawberry or chocolate cake. The real issue is that this applies to everything. E.g. so she talked to you about that issue, she told you she wants to go away. This is a moment of choice, what will your reaction be? If she is the girl of your life, if you believe she is, because we’re never meant to truly know any of these matters in a world where the future is uncertain and information is imperfect, then you can decide to show her she’s wrong or, if you believe she is not that big of a deal to you, then you can decide to let go off your dream, that maybe wasn’t that dreamy, but more of a good feeling that could come to you in other ways. If you picture the situation like that it doesn’t become that hard but we have to add here the problem of misunderstanding and misevaluation. Maybe you didn’t really get what she tried to say to you, maybe you see her as the one girl for you but she never told you about that particular issues that changes the whole situation, maybe you think she’s not the one girl for the same reason, she has yet to show you that particular thing about her that will make you fall thoroughly in love with her. The mean fact about life is that you have to choose something, not choosing anything is still a choice, because someone or somewhat will be chosen for you. Each of these choices has very high costs. If you decide to show her you’re up to it, that the issue has a solution that you can pursue, that you can be whatever she needs you to, then you’re assuming the risks which are nowhere near low, you may be frustrated, you may be rejected, you may be unsuccessful. On the opposite hand, if you choose to let go you’ll have to deal with the fact that you’re giving up to some of the most precious you ever had, you will have to face the fact that you may never be as happy, as realized as you could. None of these options are wrong and neither one of them are right, it is very hard to take the moral judgment off them, to see them just as paths leading to a future situation that may or may not be better than the current one. It gets even more complicated than that, perhaps if we manage to take off the moral judgments the decision can get even tougher, you don’t have the moral points weighing any of the sides of the balance. Choosing is all about forgoing, is all about taking the chances, you can never know if the other path would have lead to a brighter future.

September 16, 2008 at 4:20 pm 1 comment

Successive Approximations

I don’t know if that makes any sense, but somehow I feel like writing something in English. I have many dreams, one of them, one of the less achievable ones, is to win a Nobel prize in economics. I’ve been reading some Nobel laureates and they all write in English, they all have a lot to say as well.  Maybe the only way to be truly heard by many is like that, in English. It is kind of strange to write things in a language that is not your own, somehow all the things you want to say get new contours, new colors. Each dream, each plan, each thought, seems deeper, seems to mean more, to be worth more. Maybe that is the magic of learning new languages, being able to tell the same thing in another way, a way that makes people, who would not pay any attention otherwise, aware that you have something to say, and that it is worth reading, it is worth listening. I’ve noticed the benefits of sometimes using another language myself quite a while ago, there are some things that only exists in one language, some words, some ideas, some expressions, it is not uncommon for me to use them, but writing entire texts is something I usually avoid, until now. I think we should always try to say the things that mean a lot to us in multiple ways, it is something very close to Weber’s method of successive approximations, it is particularly good for communicating feelings or emotions. It is not unusual at all for me to have the feeling I didn’t get the message across, especially when I’m communicating emotions or feelings, they are always so unique, so hard to touch, to organize. To explain them in a certain way, then to look for another way of looking at it, to shed light at some other angle, to say it in another language, with other words. It is like an iterated process, each time we get closer and closer to what we really wanted to say, maybe never really reaching it, but that is what makes living life exciting, imperfect information.

September 12, 2008 at 1:35 pm 4 comments

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