A inexplicabilidade do amor

March 5, 2009 at 4:25 pm 4 comments

Costumo gastar boa parte do meu tempo procurando as explicações dos fenômenos, objetos, sistemas e mecanismos que me rodeiam. Não lembro exatamente quando essa curiosidade começou, provavelmente muito antes das primeiras memórias que ainda consigo acessar. Talvez um dos primeiros eventos que mostram o início consciente dessa busca foi a descoberta do How Stuff Works. Eu tinha 16 anos e passava horas e horas lendo centenas de artigos que explicavam as minúcias do funcionamento de todo tipo de coisas. Computadores, cds, línguas, intestinos, motores, bancos, fibra óptica, elevadores, rating, empresas, cricket, risadas, depressões. Tudo era objeto de uma detalhada e principalmente metódica análise. Lembro claramente de aos poucos começar a olhar em volta e entender melhor os dispositivos lógicos, mecânicos, sociais e humanos presentes em todos os lugares. Aos poucos fui me interessando por entender o comportamento humano, as motivações, incentivos que levam as pessoas a fazerem certas decisões, quererem certas coisas, se afeiçoarem mais por isso do que por aquilo. Foi rápido perceber que entender o porque uma pessoa ficava feliz ou triste é muito mais complicado do que entender porque o ar condicionado consegue esfriar a sala. Apesar disso estou certo que hoje minha compreensão da maioria dessas questões, ligadas ao homem, aos sentimentos, as sensações, as interações, é substancialmente mais elevada que naquela época. Apesar desse longo caminho que percorri considero que ainda é um grande mistério o funcionamento do, na minha opinião, mais nobre e intenso dos sentimentos, o amor.

Acho que esse texto nunca poderia ter sido escrito antes de maio de 2008, foi quando começou a nascer o amor mais intenso que já tive por alguém. Mesmo o amor, até então, poderia ser explicado de forma mais ou menos lógica e convincente. Só que dessa data em diante algumas coisas foram mudando no meu jeito de enxergar o amor, cada vez mais sensorialmente e cada vez menos logicamente. Tenho muita dificuldade hoje de dizer hoje o que faz com que exista o amor ou não, pois vejo que ele quebra algumas regras que seriam lógicas. Já tentei muitas vezes explicar pra mim e também pra ela os motivos pelos quais amo ela. Digo pra ela te amo porque você é linda, carinhosa, fofa, inteligente, atenciosa, paciente, se digo que amo ela pelos motivos X, Y, Z então eles são as condições de existência desse amor. Se essa fosse a explicação do porque amo ela então duas coisas teriam de ser verdade. (1) Se fossem retiradas essas características dela, eu deveria deixar de amá-la. (2) Se eu encontrasse outra pessoa que possuisse X, Y, Z, em igual intensidade eu deveria ser indiferente a amar uma ou outra, se em intensidade maior eu deveria trocar a pessoa que amo. Acontece que nem (1) nem (2) representam a realidade. Eu não deixo de amar ela quando ela é grossa pois está com problemas ou acorda menos bonita do que sempre, o amor não some, nem diminui de intensidade, quando ela não entende algo que eu explico ou se irrita comigo, ou seja eu retiro X, retiro Y, retiro Z e continuo amando ela. Por outro lado, conheço várias outras pessoas, e elas aparecem, que tem X, Y, Z e não surge o sentimento amoroso por essas outras pessoas, e nem chega a ser uma cogitação substituir ou não uma por outra. Uma objeção possível a essa lógica é que existe W nela que, apesar de eu não saber o que é, faz com que eu ame ela. Essa hipótese é válida, porém não acredito nela pelo seguinte motivo: de maio de 2008 até aqui foram aumentando as características que eu conheço e valorizo. Primeiro eu soube que ela é bonita, que é a primeira coisa que você sabe quando conhece alguém pessoalmente é a cara dessa pessoa. Depois eu soube que ela é bonita + simpática, com algumas conversas a mais soube que ela é bonita + simpática + inteligente. Se você for avaliar no instante interior a esse terceiro eu sabia duas coisas somente sobre ela, bonita (X) e simpática (Y). O Z de então seria algo que me fazia amá-la mas eu desconhecia até então, acontece que depois eu descobri que o Z era ela ser inteligente, então Z não era a explicação, talvez M? Descobri mais tarde que M=carinhosa, e também X+Y+Z+M falha nos testes (1) e (2). A cada dia descubro um novo motivo N, I, J, A, B, C,… e a cada novo motivo os testes (1) e (2) se mostram insuficientes.

Eu poderia retirar disso duas conclusões, ou que eu ainda não encontrei o motivo pelo qual se ama, ou que a minha experiência com uma pessoa fantástica me faz acreditar que não há uma explicação lógica pra esse sentimento, que não possível explicar de maneira indutiva ou dedutiva porque meu coração bate mais forte perto dela do que de qualquer outra pessoa, porque meus lábios não conseguem evitar de sorrir quando ela entra na sala, entre outros vários exemplos que só ela causa em mim. É um pouco estranho pra uma pessoa que tenta organizar as coisas da vida de modo lógico, racional, se deparar com o fato de que aquilo que mais traz prazer, o amor, não é passível de se traduzir em alguns esquemas ou equações. Mas faz completo sentido esse sentimento indescritívelmente fantástico que experimento ao lado dela vir de algo também inexplicável.

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O aspecto imaterial da propriedade Fluxo

4 Comments Add your own

  • 1. Ra  |  March 5, 2009 at 5:07 pm

    =)

    Reply
  • 2. Dani  |  March 8, 2009 at 6:00 pm

    Espero que voce ainda descubra mais fatores apaixonantes, como eu tenho descoberto em vc. Quem sabe um dia tenhamos que usar o alfabeto grego, depois ideogramas chines… =P Te amo

    Reply
  • 3. Lia  |  March 10, 2009 at 10:15 am

    não que eu concorde com que, se ela deixasse de ter X, Y e Z por muito tempo ia ser a mesma coisa, mas certamente há algo além disso. tenho uns palpites, mas acho que seria muito chata ficar me explicando. o melhor a fazer depois de ler um post desses é sorrir, como fez o Ra lá em cima

    Reply
  • 4. Bonie  |  April 1, 2009 at 4:53 pm

    Acho que não é X, nem Y, nem Z, nem W, nem M nem K.

    O amor não pode ser explicado nem pela equação mais complicada. Porque, na verdade, é tão simples que ninguém entende.
    :)

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