Archive for March, 2008

Ônibus 9 2115

Passa um ônibus correndo, em sua lateral lê-se “9 2115”. Em um instante se compreende a idéia que vinha se construindo na cabeça há bastante tempo, tenta imaginar porque ela veio justo com o ônibus e não no café pela manhã ou apertando o botão do elevador, acaba-se por desistir, conclui-se que talvez pudesse ser com um taco solto no piso, com um camelô vendendo doces ou entre as gôndolas do supermercado, não há explicação para sua chegada. As idéias muitas vezes são assim; se desenvolvem a cada instante, com ou sem nossa influência, maturam-se nas mais diversas e inexplicáveis condições, tomam formas diversas e emergem sem avisar, aparecem num olhar, num estalo, num susto.

A reação usual é a euforia, a idealização e o seguimento dela com mais mil outras. Não uma de cada vez ou cada uma em seu lugar. Do primeiro pontapé a sequência vem em forte torrente. Sem ordem definida, uma sobre a outra, dentro, embaixo, amalgamadas, misturadas, separadas, imiscuídas, acasaladas, relacionadas, contrapostas, justapostas, paralelas, se cruzando, se olhando, sempre sem conflito. E todas, juntas, formam uma grande imagem que não é visível e não se escuta, também não se cheira ou toca, de certa forma nem ao menos se sente, mas é uma imagem. Ah, e que imagem! O caos toma forma, ao mesmo tempo bela e indefinida, ordenada e catastrófica, a sequência, que não tem ordem, de palavras, ares, pessoas, lugares, lagoas, melodias, notas, harmonias, botas, juramentos, votos, fotos, testamentos, que a mais ninguém tem sentido, é incomunicável e num segundo…

Desaparece, nada dela resta. As tentativas de recordar fracassam. Força, força, nada. Olha para mais um ônibus neste lê-se “8 2141”, nada. “3 4522”, nada. “5 7251”, “2 3216”, “7 3212”, nada. Café, elevador, com todo o esforço a busca continua, mas de novo nada acontece, talvez ela estivesse na gôndola, pensa. Mas sabe que não, ela se foi. Nunca haverá uma idéia do calibre daquela, isso é certo, indiscutível, mesmo sem poder argumentar, disso se sabe, é certo para todos e cada um.

Quantas boas idéias no vento se perderam, foram e voltaram, sorrisos ergueram? Quantos, mais que sonharam, souberam, que o mundo teriam e castelos construiriam? Quantas teorias se diluíram, filosofias morreram? Quantos amores se acabaram e ficaram por nascer? Quanto se desfez sem nunca tomar forma?

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March 31, 2008 at 11:31 pm 4 comments

Todas as pessoas se iludem

Algo que constatei e aos poucos foi se sedimentado nas minhas crenças (creio ser desta maneira que surgem a maioria das noções que se têm sobre o mundo) foi que para onde quer que você olhe, verá alguém se iludindo com maior ou menor intensidade.

Enganar, iludir, maquiar, tudo isso é bastante comum. Com certeza você já deve ter reparado situações deste tipo no âmbito social: pai enganando filho, a filha mentindo pra mãe, um namorado traindo o outro, vendedor escondendo do cliente. De fato, a ocorrência desse tipo de interação é volumosa e freqüente, mas com certeza não o é tanto quanto a auto-enganação.

Talvez seja a vida pesada demais, injusta além do aceitável, as perdas numerosas como nunca foram, e acredita-se que não serão, os ganhos. Às vezes o problema pode ser a aparente inadequação aos desafios de todo dia, habilidades de menos, compreensão limitada da realidade, expectativas muito elevadas quanto a si próprio. Pode ser que a verdade conduza a caminhos demasiado imprevisíveis ou que fechar os olhos, e também enxergar o que não está lá, seja o único caminho encontrado pra não parar, para seguir.

Qualquer que seja o motivo, todos encontramos um para nos fazer acreditar em algo que, no fundo, e às vezes nem tão fundo, sabemos ser irreal. Distorce-se a realidade e passamos a ver as coisas por lentes diferentes daquelas “reais”. Entre aspas, claro, já que eu tenho uma lente e você outra, e, sendo assim, nenhuma delas pode ser verdadeiramente real. Simplifiquemos essa questão das múltiplas realidades, ligada ao fato desta ser simbólica, dizendo que, por vezes entortamos os fatos de uma maneira que não condizem nem mesmo com o que nós veríamos como real; embaçamos nossas próprias lentes.

Alguns exemplos ilustrativos: “sei que ela me ama” quando tudo o que ela faz é ir atrás do seu amigo, “vou estudar durante o feriado na praia” onde todos que te acompanham têm planos divergentes, “vou fazer um regime” logo no dia em que o pudim ficou pronto, “estou fazendo meu máximo” sendo que na primeira oportunidade se procuram desculpas diversas. Aliás, procurar desculpas pras coisas é uma coisa tão comum quanto, senão mais, do que se iludir, e, são coisas, na verdade, intimamente relacionadas. Creio que as maiores desculpas que procuramos, damos a nós mesmos: estimando acima ou abaixo nossa capacidade, prometendo dedicação a uma ou outra causa, negando ou alterando o tanto de importância que algo verdadeiramente tem para nós.

March 28, 2008 at 12:05 pm 2 comments

Encorajo os que vão à luta

Aceite, comece, conduza, conclua.
Pouco importa a causa, o valor da recompensa.
Seja uma nova política, problema de derivada,
Plano impossível, mar bravo, lâmpada quebrada
Amor difícil, um novo emprego, mesmo pouco, quase nada.
Interessa a intenção, intensidade da interação.
Tanto faz o resultado, perde mesmo quem dele se abstém
E, com medo de subir, de fora, vê passar o trêm.
De pouco vale mensurar, pesar, se à vida não levar.
Risco é pra se correr. Corra Lola, corra.
Vale mesmo é a briga, a superação.
Parar de olhar, partir pra ação.
Encorajo os que vão à luta, não hesitam frente à tormenta
E sabem ser ao fim dela, a vida, assim, plena.

March 24, 2008 at 11:09 pm 1 comment

Ana Beatriz – quarta parte

Dois dias depois do primeiro beijo Jorge acordou particularmente aflito, diversas vezes antes desta seus casos, encontros, alegrias, pouco duraram. Tomado por encantamento, sensação agradável e aconchegante que os sentimentos de estar junto sempre lhe proporcionaram, Jorge levou duras quedas durante sua vida afetiva. Laura foi, de longe, e também em cada detalhe, a pior delas. Conheceram-se no ginásio da escola em que Jorge sempre havia estudado e ela acabara de ingressar. Não estudavam na mesma sala, ele da turma 1, ela fazia parte da 3, mas se encontravam nos intervalos, nas festas, nos treinos de atletismo. Laura veio de outra cidade, estava se mudando pela terceira vez, seu pai trocava frequentemente de emprego e isso obrigava a família toda a se mudar junto com ele. Por 3 anos Laura e Jorge foram como melhores amigos, estudavam juntos, apostavam corridas de bicicleta, celebravam juntos seus aniversários. No colegial começaram olhares mais interessados, pensamentos desejosos, repentina timidez, uma série de pequenas manifestações de que o interesse aumentara em ambos os lados, sempre com grande cuidado, dado o medo de não ser recíproco, de não transparecê-lo ao outro. Mais dia menos dia, beijaram-se apaixonados, seguiu-se a isso um período áureo em suas vidas, olhavam-se nos olhos, passeavam de mãos dadas, falavam horas ao telefone, trocavam cartas, pensavam planos no futuro, planejavam desejos e os realizavam em suas mentes todos os dias. Adoravam estar juntos e acordavam pensando um no outro, conheciam lugares novos, nadavam, jogavam, pedalavam, beijavam, suavam, sonhavam juntos.

É difícil precisar quanto tempo durou, se fora 1 semana, 1 mês, 1 ano, 3 anos, mas é certo quanto tempo levou para que tudo acabasse, 5 minutos. Em um telefonema, poucas palavras, sem lágrimas, contidas pelo choque do enunciado, Laura contou que iria embora e que, apesar de tudo que tiveram e sentia, preferia que não mantivessem contato, que gostava dele e que desejava que fosse bem sucedido em todas as coisas, principalmente as do coração, grande como o seu era e que não a procurasse, desligou. Sem porquês, sem explicações, sem tempo para diálogo. Atônito, Jorge tentou ligar de volta, sem sucesso, ligou de novo, nada, mais uma vez, ninguém atendeu. Chorou, por 5, 10, 120 minutos. No dia seguinte foi até a casa dela, não havia mais ninguém, Laura havia se mudado de novo, sem rastros, sem mais nada dizer. Vários meses se passaram até que Jorge estivesse recuperado, se alguém algum dia disso pode se recuperar, mas é certo que até hoje muitas cicatrizes ainda permaneciam abertas, era sobretudo o mistério e a sensação de injustiça, perante o mundo, que o machucavam, mas não havia opções, aprendeu a conviver com esse sentimento. Havia horas em que esse sentimento era totalmente colocado em segundo plano, suplantado por tantos outros, otimistas, esperançosos, apaixonados, uma dessas horas acontecia agora, com Ana Beatriz.

Ao acordar Jorge foi até seu carro, aumentou bastante o volume do som e foi até a faculdade, apesar de aflito estava bastante empolgado, o que se refletia no pedal, em pouco tempo chegou a faculdade, suas aulas pareceram eternas, ao final delas ainda teria de esperar 5 horas até que Ana aparecesse, ao final delas, ela não chegou, atrasou meia hora, uma hora, a ansiedade normal de Jorge amplificava-se a cada minuto, uma hora e meia. Chegou, cumprimentaram-se…

March 19, 2008 at 10:52 pm 1 comment

A realidade é simbólica

Nem todas as coisas que se aprende numa sala de aula, seja ela religiosa ou laica, média ou superior, hostil ou amigável, podem ser facilmente constatadas fora dela. Um dia me disseram em uma delas: “O homem é um animal simbólico”. Nada, antes ou depois, foi mais real pra mim que isso. Essa, para mim, é hoje uma das grandes verdades a respeito do mundo: as coisas não existem em si, mas com as outras e pelas outras. Ao nos relacionarmos com todas as coisas, pessoas, objetos, sons, paisagens, cheiros, imprimimos nelas marcas, lembranças, outras coisas, significados. Não há simplesmente a bicicleta mas a bicicleta que você ganhou do seu tio aos 7 anos e onde aprendeu a pedalar, não é somente dinheiro, mas o primeiro salário depois de um mês suado, não existe a praça, mas a praça onde você viu ela a primeira vez. Todas as coisas, pequenas como uma caneta, grandes como um prédio, estão sempre carregadas de significados, que são únicos a cada um, as próprias pessoas não existem senão sob os olhos de cada uma das outras, e dela mesma, sendo pessoa diferente em cada situação. Assim, as coisas não existem em si, neutras, desprovidas de impressões pessoais e intransferíveis, nem por si, sem estabelecerem relações, visuais, auditivas, olfativas, sentimentais, emocionais, links de significados, com as outras.

March 18, 2008 at 12:02 pm 3 comments

Henrique – segunda parte

Havia pouco espaço para a vida em Henrique, ao menos era o que diziam por aí. Desde os tempos de colégio, todos a sua volta falavam, palpitavam talvez seja mais adequado, sobre ele. “Ele é quieto demais”, “o menino parece um robô”, “será que ele nunca muda, não?”, “deve ser a falta de amigos”, “a culpa com certeza é da mãe”. Procurar razões, justificativas e principalmente culpados pelo jeito de ser de Henrique era cotidiano de todos à sua volta. Seus próprios pais, desde sua infância, liam livros, procuravam especialistas, queriam mais que tudo entender porque Henrique era sempre tão regular e pouco sociável. De fato há poucos nomes para citar entre os amigos de Henrique: Jorge, Laura, Fábio e Felipe. Laura era filha dos vizinhos de Henrique, os dois brincavam no playground, até os 5 anos. Laura não gostava muito da companhia de Henrique, ele sempre queria parar o gira-gira depois da 5a volta, e só descia no escorregador 3 vezes por dia, para ela muitas vezes era como se estivesse brincando sozinha. Os pais de Laura mudaram de estado, repentinamente, em uma semana já não estavam mais lá, até hoje não se sabe para onde foram. Fábio e Felipe aconteceram na mesma época, durante o colegial estavam os três na mesma sala, faziam os trabalhos em grupo juntos, algumas vezes estudavam para as provas, na maioria delas Henrique preferia estudar sozinho. Estranho dizer que amigos aconteceram, classificá-los como eventos, como uma etapa passageira, um corredor entre duas portas, sem qualquer importância em si mesmo. Henrique não estabelecia vínculos atemporais, era seu amigo naquela hora, seu colega naquele instante, não pensava, planejava, o ser também no próximo dia, no próximo dia já não era mais, os relacionamentos aconteciam sempre no presente para Henrique e só no presente. Jorge era o atual. Jorge não era metódico como Henrique mas adorava precisar todas as coisas mensurar, entender, compreender, principalmente as pessoas, não entendia Henrique, e isso é o que mais lhe atraía no amigo, queria entender porque não se aproximava das pessoas, o motivo de fazer as coisas sempre da mesma maneira, essa era a maior motivação de estar perto dele, o que não mudava o fato de realmente gostar de Henrique. Henrique era como um projeto de pesquisa, um laboratório, um desafio para Jorge. Naquele certo dia começou a se configurar o fenômeno mais interessante desde que os dois se conheceram até então. Henrique começou a se apaixonar, ou assim classificou Jorge, o observador da situação. Ela se chamava…

March 15, 2008 at 11:31 am 1 comment

Henrique – primeira parte

Acordava sempre no mesmo horário, virava o corpo, que pendia para a esquerda, para cima. Levantava na cama e conferia o horário no relógio ao lado, 6:05. Encaixava os dois pés nos chinelos. Andava lentamente até o banheiro, 7 passos, comecando pela perna esquerda. Girava as torneiras, quente e fria, nessa ordem. Molhava o corpo na água morna, 75% quente, 25% fria, primeiro a nuca, as costas, seguia para a cabeca, o tronco. Shampoo, 15ml por aplicação, o equivalente a 3/4 da tampa. Movimentava circularmente as mãos, 15 vezes cada uma. 50% fria, 50% quente, enxaguava, abaixando o queixo e ficando arqueado em direção a parede. Sabonete, esfregava nas duas maos, colocava-o na saboneteira, lavava o corpo de cima pra baixo, sempre de cima pra baixo. Acabava nos pés, checando entre cada dedo. 75% fria, 25% quente, enxaguava, primeiro os braços, depois o tronco, as pernas, enxaguava as orelhas, começando por fora. Fechava as torneiras, fria e quente, nessa ordem. Pegava a toalha pendurada, secava-se na mesma ordem do sabonete, de cima pra baixo: nuca, cabelo, ombros, braços, esquerdo, direito, nessa ordem, tronco, pernas, esquerda, direita, nessa ordem, os pés, esquerdo e direito, nessa ordem. Todas as manhãs de Henrique eram iguais, olhando de fora era possível imaginar que no momento em que dormira Henrique havia reiniciado sua memória diária, e repetia cada movimento exatamente como no dia anterior. Henrique era uma pessoa metódica. Fazia todas as coisas em horários definidos. Pegava o ônibus. Escovava os dentes. Tomava banho. Arquivava relatórios. Chamava o elevador. Calçava os tênis. Lavava a louça. Abria as janelas. Fechava as portas. Mastigava. Engolia. Limpava. Telefonava. Falava. Todas as suas ações e atividades, sem exceção, seguiam um rigoroso, exaustivo e inalterável método. Toda sua vida ocorria dentro de limites cuidadosamente estabelecidos, horizontes bem definidos, caminhos previamente conhecidos. Havia pouco espaço para a vida em Henrique…

March 10, 2008 at 3:29 pm 3 comments

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