Archive for May, 2008

N’allez pas trop vite – primeira parte

Seis horas da manhã…
Acordo, escovo os dentes, me visto, como, dirijo.
Assisto aula, como, assisto aula, dirijo.
Estudo, relaxo, como, tomo banho, durmo.
Seis horas da manhã…

Seis horas da manhã. Dormi um pouco tarde no outro dia, percebo que a janela não esteve completamente fechada durante a noite. As roupas no pufe continuam lá, bagunçadas, o tênis no chão, curiosamente sempre com um pé de ponta-cabeça. Levanto olhando em volta, procurando aquele canto que não costumo enxergar, vejo um cd velho no meio dos outros, Silverchair, lembro dos quatorze anos. Vou até o banheiro, a toalha que era azul agora é verde, reparo na grande quantidade de remédios dentro do espelho, penso como é curiosa a idéia de algo estar dentro do espelho, fecho. Enquanto escovo os dentes vou lendo o rótulo da Colgate, as letras em português são sempre as maiores, deve ser bem ruim para os outros países latinos usar um produto que a sua língua está em letrinhas pequenas.

Durante o café da manha olho para as panelas, será que é todo mundo guarda elas encaixadas umas nas outras? Olho o requeijão, a manteiga, penso no processo de fabricação delas, logo desisto, desconheço. Ponho o prato na pia, vou até a janela, vejo o vizinho já de pé regando as plantas, lembro do Bonsai que tive, do fertilizante que comprei, era uma água verde, como era mesmo seu nome? Não importa. Pego as chaves, vou até o elevador. Enquanto espero abro a tampa do hidrante, imagino aquela mangueira achatada se dilatando, a água saindo com pressão, como será que é estar em um incêndio? SS, a porta fecha, olho o cabelo no espelho, nunca está como eu quero, mexo para um lado, acerto do outro, sei que quando eu sair ele vai voltar como estava antes, mas não verei então saio seguro.

Dou a partida, ligo o rádio, ouço o macaco meio solto no porta-malas. Indo, reparo nas guaritas dos prédios, algumas são como caixas-fortes, outras simpáticas casinhas, às vezes têm insulfilm, um porteiro, dois porteiros, penso nos nomes dos porteiros que conheci. Farol vermelho, paro, passa uma moça segurando um menino pelo braço, como será o nome dele? Será que ele gosta mais do Batman ou do Super-Homem? Abriu, acelero. Chego à faculdade, alguns carros já estacionados, uns até com motorista dentro. Sem meias, lendo jornal, uns dormindo, alguns acompanhados, conversando. Estou sozinho no meu, não me incomoda, aumento o volume do rádio, a bolsa caiu ontem de novo, lembro dos amigos que devem ter perdido bastante dinheiro, com que será que as pessoas gastam o dinheiro delas? Provavelmente com coisas bem diferentes das que eu gastaria, mas quais?

May 28, 2008 at 6:43 pm 4 comments

Aprendizado

Como tem sido evidente, a cada texto modifico em algum aspecto a forma que ele apresenta. O objetivo deste é, tendo como mote uma pequena incursão de caráter autobiográfico, mostrar algumas idéias que desenvolvi e creio que possam ser apropriadas por boa parte dos que porventura vierem a ler isto.

Algumas vezes é bastante complicado admitir algo. Dar o braço a torcer por vezes é demasiadamente difícil. Tenho muitas vezes sustentado uma argumentação, aparentemente, contrária a que desenvolverei aqui. Creio, contudo, que a contradição é apenas aparente, já que considero não me expressar com a devida clareza quando o assunto é Administração. Fiz um ano e meio do curso de bacharelado em Administração e este muito me frustrou. Apesar disso, algumas coisas boas dele ficaram, e creio que seria uma pessoa bem menos completa sem elas. Não vejo contradição necessária de uma única situação levar a frustração e, ao mesmo tempo, aprendizado. Concentrar-me-ei aqui no que de bom guardei, naquilo que aprendi e melhor pude aplicar a minha vida. Em uma próxima oportunidade falarei sobre os motivos de frustração.

O mais importante daquilo que ficou de bom é, sem embargo, no âmbito do aprendizado, a gestão do conhecimento. Ninguém percebeu melhor do que os administradores que aquilo que já foi feito deve ser reutilizado e não refeito. A idéia parece bastante óbvia, porém creio que as pessoas no geral enxergam bem pouca utilidade nela, já que a restringem ao âmbito da gestão empresarial, tendo dificuldade de transportá-la para outras áreas da vida.

Errar é humano e aprender com seu erro é razoável. A inteligência, porém se encontra em aprender com o erro dos outros. Procuro, sempre que possível, não aprender as coisas sozinho, não deixar, exceto quanto estritamente necessário, que seja o meu erro a me ensinar, mas a experiência prévia de outrem sejam estas transmitidas por exemplos, livros, conversas, palestras, aulas, músicas, manuais. Muitos alegam, acreditam e defendem que certas coisas você deve necessariamente aprender fazendo. Eu vejo verdade apenas parcial nisso.

Amar se aprende amando, se aprende sendo amando, é verdade. Mas aprendemos também a amar com o cinema, aqueles filmes que tocam nossos sentimentos de alguma maneira e por meio de situações externas a nós, mudam nossa maneira de sentir, com as músicas que condicionam nosso discurso amoroso, com o fim do namoro do seu melhor amigo, aprendi muito sobre o amor com um livro na semana passada (GIKOVATE, Flávio. “Uma História do Amor… Com Final Feliz”, 2008). Se alguém teve experiências que o levou a compreender melhor algo e de alguma maneira esforçou-se por comunicar esse aprendizado, querer chegar a ele pela mesma via é perda de tempo. Tempo é recurso escasso.

Hoje estou convencido de que a única maneira de realmente chegar mais longe é começar a frente. Vejo assim todos os aspectos da vida: o trabalho, o parceiro, os amigos, o autoconhecimento. Não há tempo hábil para que todos trilhem o caminho até a maturidade sem qualquer auxílio. Do mesmo modo que ninguém acha estranho cursar engenharia para aprender a construir uma casa, ao invés de se empenhar em tentativas sucessivas até um resultado satisfatório, não deve soar estranho que o mesmo deve suceder para nossas relações pessoais, para o trato com nossos sentimentos, para a maneira de enxergar o mundo.

Penso que especialmente no âmbito das relações humanas o aprendizado pela experiência própria é um caminho árduo a ser trilhado e permeado por muito sofrimento. Sofrimento só faz sentido quando gera aprendizado que não pode vir de outro modo. Aprender sobre os sentimentos, sobre as relações interpessoais, sobre nós mesmos, por meio da experiência alheia é renunciar a sofrimento desnecessário, é caminhar para uma qualidade de vida muitíssimo superior.

May 17, 2008 at 8:48 pm 4 comments

Eleanor Rigby

A inspiração para escrever costuma vir de fontes diversas. Algumas vezes um amigo, parente me sugere ou pede um tema. Vêm a mim reflexões sobre um assunto, geralmente no carro dirigindo, às vezes andando, outras de maneira totalmente aleatória. Entre duas ou três linhas de algum livro ou em algum filme e, finalmente, em músicas. Deixo as músicas por último porque as idéias que vêm dela geralmente chegam com uma dinâmica diferente, não são mais numerosas, tampouco são mais importantes ou elaboradas, aquilo que as distingue é o forte apelo emocional que provocam, escolhi para ser meu primeiro mote musical aqui no blog uma música dos Beatles, Eleanor Rigby (colo ao final do post a letra completa).

Eleanor Rigby conta a história de dois personagens, a própria Eleanor e o padre McKenzie, que são retratados como símbolos representativos das pessoas solitárias como um todo. Em poucas palavras a história é como se segue: tanto Eleanor como McKenzie são pessoas solitárias. Ela trabalha na limpeza da igreja, sonha em se casar, espera pelo seu amado todos os dias. Ele escreve sermões que nunca ninguém escutará, passa a noite sozinho costurando suas meias. Eleanor morre na igreja, é enterrada junto com seu nome, somente. Ninguém veio a seu encontro. Mckenzie saí da cova, limpa suas mãos. Ninguém foi salvo por suas palavras.

Vejo alguns pontos particularmente interessantes nessa história. Há tanto homens como mulheres solitários. As pessoas muitas vezes têm dificuldade de encontrar umas as outras (a única interação entre Eleanor e McKenzie acontece quando o padre enterra a moça). A solidão não é necessariamente ruim, em nenhum ponto da história fica patente a tristeza, sofrimento, desespero, talvez nem mesmo a frustração possa ser colocada como presente. Penso que não há modelo certo para viver. Casar ou não casar, ter ou não ter filhos, sair ou não da casa dos pais, ter ou não ter amigos. Há dentro da sociedade aquilo que é mais comum e, fruto de um desenvolvimento cultural e social, mais almejado.

É certo que você conhece alguma pessoa que possa classificar de desajustada, desalinhada, diferente, excêntrica. Em todo conjunto de pessoas, podemos distinguir alguém que absolutamente não se encaixa no padrão modal, mais comum. Seja alguém um pouco mais feio, menos inteligente, menos sociável, menos emocionalmente desenvolvido, alguém com gostos demasiado diferentes, todos conhecemos alguém que um dia tenhamos parado pra pensar, o que será que a pessoa faz no fim de semana? Onde vai? Com quem fica? Quem namora? Quem ama? O que ama? Ama? Esta série de questionamentos pode culminar, algumas vezes, em sentimento de pena, de piedade. Vejo este sentimento como bastante injusto e arrogante, já que é fruto de um juízo de valor em favor de si em detrimento do outro. Quão bem resolvidos somos e quanto problemáticos são os outros? Quanto nosso jeito de agir é o certo? Quanto existe o certo?

Percebo inúmeros problemas potenciais no uso do juízo de valor, diversas conseqüências negativas que dele derivam. Todavia não conheço alternativa, será o homem capaz da imparcialidade? Será mesmo desejada? Permaneço buscando, embora escassas sejam as pistas e tortuosos os caminhos.

(more…)

May 10, 2008 at 2:41 pm 4 comments


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