Archive for August, 2008

Ariela

Saiu correndo pelas escadas, descia pulando de dois em dois degraus, seus pés pisavam vacilantes, os sapatos havia retirado dos pés e carregava na mão esquerda, a bolsa no ombro, às vezes segurava o corrimão. Não enxergava bem o caminho, as lágrimas turvavam sua visão. Ariela havia chamado o elevador mas, perturbada demais, não agüentou esperar. Partindo do décimo quinto andar, desceu sem pensar, sem parar. Tropeçou no hall do nono, não se levantou. Sentou ao lado de uma porta estranha e chorou. Com os joelhos erguidos, os braços cruzados sobre eles e o rosto no meio, Ariela chorou por muitos minutos. Sua maquiagem escorria escura, da cor dos cabelos bagunçados, pela face, os óculos jogou no chão depois que sentou. Ninguém discordaria de que Ariela, apesar ou por conta de seu estado, estava notavalmente atraente naquele momento. Não pensava, não avaliava, não raciocinava, chorava. Se pensasse lembraria que está não era a primeira vez e que as coisas se acertaram na última. Se avaliasse perceberia que tudo aquilo era conseqüência direta das coisas que havia dito e que a situação não podia se desenrolar de maneira diferente. Se raciocinasse perceberia que eram oito da noite, o prédio tinha quatro apartamentos por andar e era bem provável que alguém a notasse ali, ouvisse seu choro e, com intenção de ajudar, perguntasse o que tinha acontecido. Ariela não saberia explicar. Tudo o que sabia é que pegou as chaves do carro, disse que não voltaria, bateu a porta…

August 1, 2008 at 11:19 pm 3 comments

Do encadeamento de escolhas

De quando em quando fazemos coisas que não podemos desfazer. Um encontro em que se perde a hora, um comentário mais ácido que não consegue se segurar, um elogio mais delicado antes do devido. É longa a lista. Em um segundo a palavra vem a sua cabeça, em outro sai, no terceiro se quer trazê-la de volta, fracasso. Parece-me que a vida é como uma gigante cadeia de acertos e erros e a probabilidade marginal de se avançar positivamente, ao longo de um relacionamento, é decrescente. Se a cada escolha podemos ou acertar ou errar, se temos chances iguais disso, a chance de errar em uma escolha é de 50%, de errar em duas é de 75%, em três 82,5%, e aumenta sem parar. É claro que há muitos fatores que influem no esquema. As afinidades, compatibilidades, mudam as chances de acerto e erro a cada iteração, tendemos a acertar mais quando conhecemos melhor o outro, quando ele adquiriu alguns significados importantes para nós. Além disso, o impacto de um erro é diverso, dependendo de como o outro te vê, uma pessoa querida, próxima a você terá uma maior resistência aos seus erros até que se torne insustentável qualquer continuidade.  Apesar disso se olharmos atentamente para o sistema descrito veremos que não importa com quem se dê nossa interação, a tendência é caminhar para o erro, para o desentendimento.

August 1, 2008 at 10:29 am 1 comment


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